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A Nova NR-01 e os riscos psicossociais: um alerta urgente para empresários e gestores

Nos últimos anos, testemunhei mudanças significativas no mundo do trabalho: a transformação digital, o aumento do trabalho remoto, a pressão por produtividade e, mais recentemente, a emergência de uma preocupação que por muito tempo foi negligenciada — a saúde mental no ambiente corporativo. A recente atualização da NR-01 (Norma Regulamentadora n.º 01), publicada pelo Ministério do Trabalho, é um divisor de águas nesse cenário. Ela obriga as organizações a identificarem, analisarem e tratarem os riscos psicossociais como parte integrante do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

Essa mudança não é apenas normativa. Ela representa um marco legal que torna inadiável o debate sobre o impacto emocional, social e cognitivo das condições de trabalho na vida dos colaboradores. Como profissional de RH, considero está uma das atualizações mais relevantes da legislação trabalhista nas últimas décadas.

O que são riscos psicossociais?

Riscos psicossociais são fatores do ambiente de trabalho que podem afetar negativamente a saúde mental e emocional dos trabalhadores. Eles incluem assédio moral, sobrecarga de trabalho, falta de reconhecimento, metas inatingíveis, insegurança no emprego, relações interpessoais tóxicas, ausência de apoio da liderança, entre outros.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o estresse no ambiente de trabalho é considerado o “mal do século” e está diretamente ligado a problemas como burnout, depressão, ansiedade, baixa produtividade e aumento do absenteísmo. Dados da ISMA-BR (International Stress Management Association no Brasil) indicam que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem de burnout, e o país é o segundo do mundo com maior prevalência da síndrome.

O que muda com a atualização da NR-01?

A nova redação da NR-01 estabelece que os riscos psicossociais devem ser obrigatoriamente considerados na etapa de identificação de perigos e avaliação de riscos no GRO, exigido pelo Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso significa que a saúde emocional dos colaboradores deixou de ser uma responsabilidade difusa ou apenas ética — agora é uma exigência legal.

As empresas precisarão, de forma documentada:
• Identificar fontes de riscos psicossociais.
• Avaliar sua probabilidade e gravidade.
• Elaborar planos de ação para eliminá-los ou controlá-los.
• Monitorar continuamente seus efeitos sobre os trabalhadores.

Não basta mais uma palestra eventual ou uma campanha no Setembro Amarelo. O que está em jogo é a integração estruturada e contínua do cuidado psicossocial na gestão da saúde e segurança do trabalho.

Por que os empresários devem se preocupar?

Além de atender à legislação, investir na gestão dos riscos psicossociais é uma estratégia inteligente para a sustentabilidade dos negócios. Empresas que ignorarem esse aspecto correm riscos sérios:
• Multas e autuações trabalhistas por não cumprimento da NR-01.
• Ações judiciais relacionadas a danos morais ou doenças ocupacionais.
• Danos à reputação, especialmente em tempos de redes sociais e employer branding.
• Queda de produtividade, rotatividade elevada e perda de talentos.

Por outro lado, organizações que se antecipam e adotam práticas saudáveis de gestão emocional colhem benefícios claros: engajamento, retenção de talentos, melhoria no clima organizacional e incremento nos resultados financeiros.

Absenteísmo: Um Sintoma Alarmante

O absenteísmo tem se tornado um indicador crítico da saúde organizacional. Dados recentes revelam:
• Setores com maiores taxas de absenteísmo: BPO (3,39%) e Varejo (3,38%), refletindo ambientes de alta pressão e rotatividade.
• Causas principais: doenças físicas (40%), problemas de saúde mental como ansiedade e burnout (20%), e fatores familiares (15%).
• Impacto financeiro: no setor da saúde, o absenteísmo gerou prejuízos superiores a R$ 25 milhões anuais em 23 hospitais analisados.
• Afastamentos por saúde mental: em 2024, o Brasil registrou 472.328 licenças médicas por transtornos psicológicos, um aumento de 68% em relação ao ano anterior.

Esses números evidenciam a urgência de ações concretas para mitigar os riscos psicossociais e suas consequências.

Caminhos práticos para atuar com eficiência

Implementar a gestão dos riscos psicossociais exige método, sensibilidade e alinhamento estratégico. Abaixo, listo as ações essenciais que tenho orientado meus clientes a adotar:
1. Diagnóstico Organizacional Profundo Realize pesquisas de clima, entrevistas e análises comportamentais para identificar pontos críticos de estresse e insatisfação.
2. Formação de Líderes são peças-chave: capacite-os para reconhecer sinais de sofrimento psíquico e agir de forma ética e empática.
3. Revisão de Cargos, Metas e Processos Avalie a coerência entre demandas, recursos e tempo. Cargas excessivas e metas irreais são fontes diretas de adoecimento.
4. Apoio Psicológico Estruturado Disponibilize canais de escuta, programas de assistência ao empregado (EAPs) e acesso a profissionais de saúde mental.
5. Cultura Organizacional Humanizada Promova um ambiente de confiança, respeito e reconhecimento. A cultura é o principal fator de proteção (ou de risco) à saúde emocional.

Um convite à responsabilidade e à inovação

A NR-01 atualizada não é apenas mais uma obrigação a ser “cumprida no papel”. Ela é um chamado urgente à responsabilidade empresarial sobre a saúde mental. É também uma oportunidade para que empresas inovem na forma como cuidam de seu ativo mais precioso: as pessoas.

Como profissional que há mais de duas décadas acompanha a evolução das relações de trabalho no Brasil, coloco-me à disposição para apoiar empresas que desejam se adequar de forma séria, ética e estratégica à nova legislação. Não se trata de modismo ou burocracia. Trata-se de dignidade, produtividade e futuro.

Escrito pelo Conselheiro Federal do CRA-MS, Adm. Rodrigo Cazelli, especialista em Mudança Comportamental, com mais de anos de 18 anos de experiência em Administração e Cultura Organizacional.